Pactum

 

A felicidade como valor estratégico

24 de dezembro de 2009

Às vésperas do Natal, parece adequado falar de felicidade. Mas para que o advogado não dê lugar a um escritor pouco promissor, escrevo sobre felicidade e legislação trabalhista. Paradoxo? Não. Passo a explicar.

Neste ano de 2009, incentivado por um amigo e empresário de sucesso, tive acesso ao livro “Os segredos das empresas mais queridas: como as empresas de classe mundial lucram com a paixão e os bons propósitos” (Sisodia, 1988.)

Nele, há um capítulo dedicado às relações de trabalho em que se encontra a seguinte afirmativa: “Na era da Transcendência, as pessoas estão buscando mais que um simples cheque como pagamento; elas querem uma ‘renda psíquica’ tanto quanto a renda monetária”. Essa frase estimulou-me a ler a obra sob o ponto de vista do que tem sido afirmado a respeito do uso estratégico da legislação e a observar as empresas com que me relaciono profissionalmente. A conclusão é que podemos, sim, utilizar a legislação para trazer mais felicidade para dentro das organizações e utilizar isto como um valor estratégico.

Um projeto de remuneração, por exemplo, embora possa aparentar aumento de custos num primeiro momento, pode aumentar a retenção dos colaboradores, vindo a diminuir gastos com recontratações e treinamentos. Planos de saúde adequados influenciam diretamente na sensação de segurança, reduzindo ansiedades e até mesmo angústias diante de imprevistos. Esse direcionamento de recursos pode ser apropriado como despesas, refletindo em economia tributária. Os resultados motivacionais são óbvios.

Há empresas que utilizam o Programa de Alimentação do Trabalhador de forma criativa: oferecem restaurantes, administrados por empresa terceirizada, que se tornam atrativos até mesmo para o público externo. É comum famílias e amigos dos colaboradores utilizarem os restaurantes como ponto de encontro durante o almoço ou jantar. O bem estar é aumentado, a empresa torna-se visível na comunidade com reforço da marca por um custo muito inferior a qualquer campanha de publicidade.

A legislação de estágios é outra forma da empresa proporcionar um serviço social e aproveitar mentes jovens, ansiosas por aprendizado, como fonte de novas idéias e estímulo aos profissionais mais antigos. O intercâmbio com as universidades e escolas traz para dentro da empresa fontes de pesquisa e desenvolvimento e exporta a cultura e valores organizacionais com forte impacto na formação dos futuros profissionais. A idéia é tão promissora que algumas organizações criam suas próprias escolas.

Um plano de carreira permite que cada colaborador saiba exatamente o que se espera dele. Isso, aliado a um modelo gerencial em que as responsabilidades são bem definidas, traz para o cotidiano de cada pessoa os valores e objetivos organizacionais. Os clientes acabam percebendo a diferença ao serem tratados por profissionais afirmativos, interessados, motivados para a resolução dos problemas. Novamente, os ganhos com a divulgação institucional são aumentados significativamente.

As exigências legais a respeito do ambiente de trabalho, ergonomia e segurança, quando atendidas de forma estratégica, dão ao trabalhador a sensação de conforto e bem estar necessária à produtividade. O dimensionamento adequado dos espaços e mobiliários tem influência direta na concentração e agilidade, especialmente se a empresa vai além da exigência normativa e alia os preceitos meramente técnicos com fatores de conforto e estética.

As equipes de comissões internas obrigatórias, tais como as CIPAS, podem criar entre a alta administração e os colaboradores uma via de comunicação importante na análise e solução de problemas, com soluções criativas de baixo custo que podem ir bem além das questões de segurança.

Nada disso é novidade. Já muito foi escrito e dito sobre o uso estratégico das exigências legais. O que há de novo é que os diversos itens da legislação podem ser direcionados para criar o ambiente peculiar de uma “empresa querida” do ponto de vista dos colaboradores, clientes, fornecedores e acionistas.

Isso é possível. No meu cotidiano profissional, conheço organizações que realizam esse ambiente de forma cada vez mais adequada, tendo por tônica a preocupação com a dignidade da pessoa humana e o direito natural de buscar a felicidade. Portanto, fale com seu consultor e pergunte-lhe como usar a legislação de forma a trazer mais felicidade para dentro de sua organização. Seja feliz. Aumente a “renda psíquica” de seus colaboradores. Use a felicidade como fator diferencial de sucesso.
 

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